domingo, 12 de março de 2017

Minha história


Decidi começar este blog como um carinho para a minha alma e também para poder ajudar outras pessoas que passaram pela perda gestacional ou neonatal.


Engravidei aos 39 anos (desejava ser mãe desde os 30, mas esperei encontrar a pessoa certa). 
Desde o início, tive acompanhamento médico, realizei todos os exames previstos no Pré-Natal. Tive uma gravidez tranquila e sem maiores intercorrências. 
Eu e o meu marido (assim como toda a nossa família) estávamos tão felizes com a nova vida que vislumbrávamos que nem sobrava espaço para pensarmos em coisas ruins. Reformamos a casa para dar espaço ao quarto da nossa filha Bibiana, oficializamos a nossa união e comemoramos cada etapa da gestação junto com amigos e familiares. Foram churrascos, almoços, festas, reuniões em família para assistir televisão e ver a barriga mexendo. Se tenho na lembrança a definição de felicidade, com certeza, foram os 9 meses que carreguei minha filha na barriga.
Fiz minha última ecografia com 37 semanas de gestação, no dia 17 de Novembro de 2016 e, neste dia, a médica que viu as imagens disse que minha filha estava pronta para nascer, mas que era melhor eu conversar com a minha obstetra. No dia 18 de Novembro de 2016, levei a ecografia para a consulta com a minha obstetra e esta me disse que tudo corria bem e que a Bibiana nasceria no dia 9 de Dezembro de 2016, data então agendada para o parto. No dia 25 de novembro, voltei na minha obstetra para exames de rotina e ela mediu minha pressão que deu 9 por 12 (o normal era de 6 por 10). Perguntei se estava tudo bem e ela disse para eu não me preocupar porque a Bibiana chegaria na hora em que deveria chegar. Relaxei e não me preocupei mais. Eu e meu marido casamos na quarta-feira, dia 23 de novembro no civil, e, no dia 25 de novembro celebramos nossa união com um jantar para a família. Foi lindo. Eram muitas emoções juntas. 
No dia 27 de Novembro, domingo, almoçamos na minha sogra e viemos para casa descansar. Durante este dia, a Bibiana se mexeu muito, como era de praxe. Ela era uma criança muito brincalhona. Pelas 22h da noite, eu a senti mais quieta, mas como tudo corria bem, pensei apenas que ela estivesse dormindo como também era de praxe fazer, ainda mais com menos espaço em meu ventre para se movimentar.
No dia 28 de novembro, segunda-feira, acordei sentindo fortes contrações e peguei a mala da maternidade para ir ao hospital conhecer minha filha. 
Chegando lá, o maior pesadelo da minha vida começou. 
Ao invés de me mandarem direto para a maternidade, tive que preencher um cadastro que deve ter demorado uns 15 minutos. 
Uma enfermeira me levou a uma sala para fazer o ultrassom e me disse com a mais ingênua expressão que não estava encontrando os batimentos do bebê e que chamaria a médica plantonista para me fazer uma ecografia. 
A médica plantonista, uma alemoa de olhos azuis, fez a ecografia e logo em seguida me olhou e disse: "olha, infelizmente, tua filha está aqui dentro de ti, mas não apresenta mais os batimentos cardíacos." Óbvio que eu não acreditei! Estava sentindo-a mexer até a noite anterior... Eu olhei para a médica e, em estado de choque, disse: "Eu não acredito!" no que ela revidou: "Pode acreditar porque infelizmente é verdade". 
A partir daí, o resto que vivi foi a cena surreal de um filme de terror. O pior deles. Chegaram na sala em que eu estava: minha obstetra, meu marido, minha mãe e o meu pai. Minha sogra se dirigia ao hospital. Com exceção da minha obstetra que já havia sido comunicada pelo corpo médico do hospital e da minha sogra (que meu marido contou depois), tive que dar a notícia a todos eles. Depois, saí de mim. 
Me encaminharam para uma sala fria, onde eu ouvia as mães parindo seus filhos vivos nas salas do lado (sim, ouvíamos os choros das crianças) e fui submetida a uma cesárea. 
Minha primeira reação foi não querer ver a minha filha, mas uma enfermeira muito gentil e a psicóloga do hospital disseram que seria importante termos contato com ela e nos despedirmos.  
Meu marido esteve o tempo todo do meu lado me dizendo o quanto eu era corajosa. Eu pensava comigo: ainda bem que ele está aqui. Eu não sou corajosa. Eu estou com medo de conhecer este bebê sem vida. 
Quando peguei a minha filha Bibiana nos braços, eu senti paz. Lembro daquele bebê perfeito, que pesava 2 kilos e 900 gramas e que tinha 49 centímetros. Ela tinha os olhos e o nariz do pai (tanto que eu rezei para ela não sair com o meu nariz) e tinha também minha boca, minhas mãos e até o formato das unhas.  Era meio ruivinha e tinha uma expressão angelical. Minha tão sonhada filha. Ali, "dormindo" como um anjinho. Foi um momento cheio de felicidade e tristeza. Eu cheirei minha pequena, a beijei muito e me despedi. Eu esperei tanto por aquele momento e, agora, ele havia chegado. Diferente de tudo que eu havia planejado. Meu maior sonho; meu pior pesadelo.
Depois disso, lembro de poucas coisas: a dor  da cesárea, meus peitos cheios de leite, a visita dos amigos e familiares e do vazio. 

Importante:
Como eu havia passado por uma cirurgia, meu marido cuidou de todas as questões burocráticas: o registro do óbito da nossa filha (no mesmo cartório que havíamos casado dias antes), a compra de um caixão delicado como ela, o túmulo (ela foi enterrada junto ao meu sogro), a lápide com o seu nome e de avisar os amigos e familiares sobre o enterro.

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